segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

2007 - Retrospectiva de sabores

2007 começou bem... ingressei no módulo Avançado do curso de tecnólogo em Gastronomia da UniRio. Como se come! A gente VÊ a diferença nos quilinhos, nossos e dos colegas... conheci um garoto que chegou a engordar 15 quilos num curso de gastronomia de apenas 4 meses de duração!

Empolgada com o curso, comecei a pesquisar livros na Amazon, e descobri o paraíso: livros que equivalem a um curso de gastronomia completo, outros que abordam assuntos que jamais verei abordados em um curso de gastronomia, pelo menos no Brasil. Até agora comprei uns 20, jurei pra mim mesma que é preciso parar, mas confesso que é difícil... ainda mais porque os caras vivem me mandando “novos lançamentos” que se encaixam exatamente no meu perfil de compradora...

Um dos colegas da UniRio trabalhava no Pecado, de Checho Gonzalez, o que me incentivou a ir lá algumas vezes - na última, com Alexandre e mais um casal de amigos, quando surgiu a idéia de uma viagem a Nova York. A idéia pusemos em prática em setembro. Já o Pecado, apesar do talento do chef, não chegou a emplacar 2008 – o consolo é que o Checho não foi pra Espanha, voltou pro Zazá Bistrô, logo ali...

Realizei o tantas vezes adiado sonho de visitar a Feira Nordestina, onde fui encontrar amigos de colégio que reencontrei no orkut, gente que conheço desde os dez anos de idade. Chegando lá a primeira coisa que fiz foi saciar a sede e principalmente a curiosidade tomando um guaraná Jesus... depois pedi uma caipirinha de caju e logo lembrei que essa clássica combinação tem até nome próprio: "caju amigo"! Trata-se realmente de dois ingredientes feitos um para o outro. A Feira merece outras visitas, e pretendo voltar com calma para fuçar as barracas em busca de temperos e ingredientes diferentes.

Se tivesse que eleger o ingrediente do ano, seria a pimenta de Sichuan (nome de uma província da China). O gaúcho Marcelo Träsel afirma em seu blog que ela já está sendo plantada em Florianópolis. Segundo ele, o que os americanos chamam de Sichuan buttons é a mesma coisa que o jambu, usado em diversos pratos da culinária amazônica.

Pelo que sei, o jambu é usado no pato no tucupi, mas é uma folha... A sensação, no entanto, seria parecida: uma espécie de anestesia. Há quem a descreva como afrodisíaca, pois aguça os sentidos. Ferran Adriá usa para fazer o tal do “leite eletrificado”.

http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2007/10/02/AR2007100200464.html

No artigo acima do Washington Post, o autor afirma que 80% das pessoas, ao experimentar a tal semente, acham muito divertido e exclamam: "Uau! É a coisa mais surpreendente que já experimentei! Parece que estou com uma bateria de 9 volts na boca!”

O chef Alexandre Cymes, do Cybercook, explica que “a pimenta de Sichuan, na verdade, é o botão seco de uma flor..”’, levando a crer que Sichuan pepper e Sichuan button seriam exatamente a mesma coisa. Para confundir mais um pouquinho, no Japão o povo chama de “sansho”.

No site Invivo Ciência, da Fiocruz, a gente fica sabendo que, embora não tenha capsaicina, que causa a sensação de ardor (você sabia que só as línguas dos mamíferos possuem receptores para a capsaicina? por isso os passarinhos podem se fartar de tanto comer pimenta...), a pimenta de Sichuan age de modo diferente, provocando dormência.

A tal pimenta, ou botão, ou seja o que for, adiciona uma nova dimensão à experiência gastronômica. Afinal, já foi o tempo em que bastava a comida ser gostosa: hoje em dia, comida tem que surpreender, mexer com as emoções!

Não sosseguei enquanto não arranjei minha Sichuan! Cheguei a pensar em encomendar a algum acupunturista ou alguém que viaje pra China com alguma freqüência, mas foi bem mais fácil: depois de procurar em todos os lugares possíveis aqui na capital, fui encontrar a tal pimenta-que-não-é-bem-pimenta numa pequena feira de gastronomia em Itaipava, região serrana do estado. (Descobri depois que no Hortomercado de Itaipava também tem). Vou usá-la em um sorvete, acho que vai ficar interessante, depois conto detalhes.

Sou uma cinéfila que cozinha e dois filmes estiveram, pra mim, bastante associados à minha experiência gastronômica no ano de 2007 (embora curiosamente nenhum dos dois seja sobre comida). Um deles foi o surpreendente “O Perfume” (lembro de ter lido uma crônica da Cora Rónai, dizendo que não esperava muito do filme mas que tinha achado ótimo!). Pra mim foi especial porque, como 2007 foi o ano em que mergulhei profissionalmente na gastronomia, fiz uma analogia entre aquela busca incessante do protagonista pelo perfume e a minha própria busca por novos sabores, combinações, releituras de pratos clássicos...

O outro filme tem mais de dez anos, mas não pude evitar um paralelo. É “Pret-a-porter”, do Robert Altman, que mostra os bastidores do mundo da alta costura. Na cena final, depois de todo o tipo de desvarios nos desfiles, o estilista apresenta sua obra maior: um desfile com todo mundo nu! O que me levou a pensar: onde vamos parar? O que virá depois de tanta criatividade nas cozinhas do mundo?

A viagem a Nova York merece um capítulo à parte. Foram visitas a delis como a Dean & de Luca, a Zabar´s (que aparece no filme Manhattan, de Woody Allen), a Eli Zabar (parece que os dois Zabars são irmãos, e cada um tem sua própria deli) e tantas outras repletas de chocolates, utensílios e novidades fantásticas. Restaurantes lindos como o Brasserie, onde vidros jateados camuflam garrafas de formas variadas numa gigantesca vitrine, outros sofisticadamente simples como o Nougatine (na Trump Tower, com menu super em conta no almoço), simpáticos como o l´Ecole (restaurante-escola do French Culinary Institute, também com preço ótimo) e cheios de gente bonita e descolada como o tailandês Spice Market.

2 comentários:

Alexandre Guedes disse...

O blog é de dar água na boca...delicioso e instrutivo.Adorei!Quanto ao Spice Market,it's pretty cool baby,but...QUE FILA!

Dorothéa disse...

Concordo em gênero, número e grau com meu amigo, colega e companheiro de aventuras, Alexandre. Nádia, parabéns pelo blog! Fiquei feliz de ter participado de muitas experiências descritas com muita desenvoltura e criatividade.